terça-feira, 30 de junho de 2026

Satan Oculto E Adormecido E Desperto

 


Potestades do Céo, dominios, tronos

Se em seu golpho o mesmo Abysmo

Nosso imortal vigor, posto que opresso,

Segundo vedes, embargar não pode,

Não julgo para nós o Céo perdido.

Virtudes celestiais que se alevantam

De queda tão tremenda mais gloriosas,

Mais fortes, mais terríves que antes d’ella,

Não mais teem que temer de outra derrota

Confiando em sua innata valentia.

Eu que por fixas leis, justiça eterna,

O vosso chefe sou, des’que existimos,

Também me honro do jus a tal grandeza

Por vossa livre escolha conferido,

E do que nos conselhos, nas batalhas,

Meu merito prestante me grangeia.

Até por fim os infortunios nossos,

Em grande parte reparados hoje,

N’esta suprema altura mais me firmam

Pois que n’um solio estou da inveja a salvo,

Possuindo alto poder, honrarias, delicias,

Pode ser invejado do Céo o trono;

Mas quem no Inferno invejará tal sitio

Que mais erguido, qual baluarte vosso,

Mais do Deus vingador se expõe aos raios

E a ter maior quinhão na infinda pena?

Onde bens faltam, que ambições provoquem,

Não ha de que temer a rebeldia:

Ninguém põe mira na realeza do Orco,

Nem ambicioso quer que mais avulte

A pena atual que diminuta soffre.

Fortes d’esta vantagem, procuremos

Com mais acordo e união, com mais lealdade

Do que vimos no Céo, ganhar de novo

De nossa herança justa o ancião dominio,

Mais certos do sucesso afortunado

Do que se elle nos viesse da fortuna.

Versa o debate sobre sobre qual dos modos

Convêm, se guerra aberta ou trama occulta.

Falae, expande os parecêres vossos.


Satan discursando,

Canto II de

O Paraíso Perdido


Satan, c. 1866 – Ilustração para o livro O Paraíso Perdido de John Milton ~ Gustave Doré


Inomináveis Saudações a todas e todos vós, Coveiras, Coveiros e visitantes.

O trecho acima de O Paraíso Perdido, do poeta inglês John Milton, diz muito acerca de muitas verdades inseridas em suas palavras, Irmãos Blogueiros. Verdades que poucos podem ver. Verdades que todos podem ver. Verdades que muitos não querem ver. Verdades que muitos recusam-se a ver. Verdades que apenas ao fátuo toque do desejo de conhecer podem dizer tudo acerca do ir, do vir, do acontecer, do não ir, do não-vir e do não acontecer de todas as Coisas Moldadas.

Não houveram erros de português acima, Irmãos Blogueiros, apenas utilizei o português do século dezenove da edição portuguesa do ano de 1884 daquela obra-prima magistralmente coroada com muitas Verdades Ocultas E Certezas Encontráveis Para Aqueles Que Buscam Encontrar Toda Certeza No Grande Mar Material E Espiritual Da Criação. O idioma português atual, comparem, Irmãos Blogueiros, perdeu toda a beleza que possuía tanto na escrita quanto na fala devido às "grandes revisões idiomáticas" que houveram após o século dezenove. Mas, eu não vou falar nesta reflexão, Irmãos Blogueiros, acerca do nosso idioma.

Vou falar de Satan. Esta é a terceira vez que estou escrevendo esta reflexão, mas parece que Algo a esta impedindo de ser publicada. Seria Satan? Ou estou fantasiando, imaginando, algo que não existe? Satan pode ser um mero mito. Satan pode ser uma mera fantasia. Satan pode ser um mero fantasma. Satan pode ser uma mentira. Satan pode ser uma verdade. Satan pode estar agora aqui ao meu lado, inspirando-me, permitindo-me sobre Ele escrever. Ou eu posso estar, apenas como poetas e escritores, a falar de alguém imaginário, um personagem do inconsciente coletivo que foi moldado para ser um bode expiatório para todos os crimes humanos, para que os crimes maiores, crimes menores, crimes eternos ou crimes temporários da Humanidade tenham uma desculpa para serem explicados. Talvez Satan, Aquele Que Foi Lúcifer (conforme crêem os cristãos e os protestantes), O Portador Da Luz, A Estrela Alva Da Manhã, Aquele Que Desafiou Aquilo Que Possui Muitos Nomes Mas Não Possui Nenhum Nome, exista.

Os místicos dizem que apenas podemos encontrar o Nosso Pai Creador, O Princípio Que A Tudo Manifesta Eternamente, se olharmos para o nosso Eu Verdadeiro, o nosso Ser Interno. Invertamos essa Busca Maior e imaginemos, Irmãos Blogueiros, um suposto místico procurando em si a Satan. Tal místico teria Satan em si. Tal místico veria Satan em si. Tal místico compreenderia Satan em si. Tal místico aceitaria Satan em si. Tal místico abraçaria Satan em si. Tal místico em si deixaria o seu Satan Oculto. Tal místico deixaria em si o seu Satan Adormecido. Tal místico deixaria em si o seu Satan Desperto. Tal místico não seria bom, não seria mau. Tal místico não seria Luz, não seria Trevas. Tal místico não estaria no Bem, tal místico não estaria no Mal. Tal místico saberia que o Satan Interno é uma experiência silenciosa dentro de si mesmo. Podemos, Irmãos Blogueiros, nessa suposição, vermos que tal místico seria mais corajoso do que muitos de nós que estremecem diante do desejo de conhecer ao que oculto possuem em suas Almas Eternas.

Eu me pergunto se teria a coragem de realizar algo assim, Irmãos Blogueiros. Talvez vós todos estejais se perguntando se teriam tal coragem desafiadora de tudo como as palavras acima de Satan discursando, Irmãos Blogueiros. A resposta eu não posso dar a vós, Irmãos Blogueiros, ela é interna. As vossas respostas, Irmãos Blogueiros, recomendo que procurem e internamente guardem-na. Reflitam visualizando as imagens que publico com esta reflexão, ilustrações de Gustave Doré para a edição de O Paraíso Perdido que estou lendo. O Dogma Da Queda virá às vossas mentes com tais ilustrações. Tal Dogma pode ser A Verdadeira História Do Início Da Humanidade. Talvez eu seja Satan. Talvez todos nós sejamos Anjos Caídos.

Saudações Inomináveis a todas e todos vós, Coveiras, Coveiros e visitantes.


01 de agosto de 2006